sexta-feira, 2 de outubro de 2015

Relato de Parto Domiciliar de Liliane Lins

Sobre o dia 22/04/2015
Era pra ser o dia do meu aniversário. Era pra ser uma quarta-feira típica de uma aniversariante que está fazendo nova idade...
Mas foi diferente.
Foi o renascimento/NASCIMENTO meu e de Letícia.

Começou as 10:45 da manhã. Uma contração diferente das contrações de treinamento (pródromos) que eu vinha tendo durante as últimas semanas. Lembrei-me na hora do que o meu obstetra, Dr. Telmo Henrique, me falou quando questionei sobre a chegada das reais contrações para parir; e ele me falou: "você vai saber a hora."
E soube naqueles exato momento das 10:45 que ela ia vir pra mim naquele dia. Ela seria o meu presente de uma quarta-feira, não mais típica, e sim especial.
Falei com a equipe que vinha me acompanhando desde das 34/35 semanas pelo whatsapp (criei um grupo entre nós) e relatei o que estava acontecendo. A orientação que tive foi de monitorar as contrações e anotá-las por duas horas. Assim fizemos. E nesse tempo eu finalizei os últimos preparativos para a chegada dela, varri a casa, tomei um banho bem demorado, lavei os cabelos e os escovei, parando para anotar as contrações junto com o meu marido, o Lucas.
As dores vinham e iam como ondas.
As dores seriam minhas companheiras até ela chegar.
Companheiras. Foi assim que as chamei mentalmente.
A principio não sabia como lidar com elas, fiquei tensa e ansiosa; mas não tive medo do que estava por vir. Então me agitei um pouco e percebi que o Lucas também estava no mesmo ritmo que eu. Sabia que tinha que me acalmar. Buscar a tranquilidade.
Três horas. A equipe não chegava. E eu agitava ainda mais.
Contrações. Muitas. 3/4 dentro de 10 minutos.
Cadê elas??
Liga Lucas!
Contração.
16:00 horas.
E elas chegaram!
E elas trouxeram um bálsamo da paz pra mim. Agora sim! Estava super segura!
Juliana Oliveira e Fernanda Fassanaro!!!!







Montamos a banheira no meu quarto. A playlist já estava tocando. Me agarrei com a Nanda como todo fervor. Minha Doula.
Não toquei mais no celular, estava recebendo mil recadinho pelo whatsapp, em especial ao grupo do Colégio, que mandei um aúdio dizendo o que estava se passando e pedi para não postar nada no face sobre a minha atual situação,já que eles criaram a hashtag: ‪#‎vemlelê‬ Emoticon wink.
Fiz esse pedido por algumas e especias razões:
1. No meu trabalho de parto eu só queria: meu marido/porto seguro, a equipe, a fotógrafa e uma amiga minha. APENAS.
2. Minha mãe, assim como os demais relatos que ouvi e li durante a gestação e preparação para ter o parto domiciliar fiquei ciente da ansiedade e não aceitação que as mães tem com relação a essa escolha, então não me senti mais uma "gestante abandonada pela mamys" e entendi o quanto é difícil pra elas entenderem essa nova visão, a humanização do parto. Então por decisão minha e também esclarecida na minha família eu disse que todos só ficariam ciente do nascimento de Letícia quando estivesse com ela em meus braços.
Independente de como seria o parto; caso tivesse que ser feito uma cesária.
Eu queria mínimo de pessoas comigo para ter o máximo: Letícia.
E para isso necessitava de tranquilidade e de pessoas que depositassem fé na minha força; e não despejasse ansiedade e nervosismo pra mim.
Porém, como toda mãe, a minha já estava com presentimentos e ligou algumas vezes pra saber de mim, pq ela sabia que uma das datas prováveis para o parto seria o dia 22; mas o meu Porto Seguro a tirava de tempo...
Com a equipe na minha casa, o cenário montado para receber minha boneca o que restava era suportar as dores e o ardor que sentia nas minhas pernas.
Tomei um banho morno e fui direto pra cama, onde a Fernanda fez umas massagens em mim para aliviar as contrações e diminuir as minha tensão.
Não cessava.
Elas vinham mais fortes.
E eu pensava: elas são as melhores companheiras que eu tenho nesse momento; então buscava aceitá-las e internalizava que era Letícia se aproximando cada vez mais. Lembro-me de ter escutado isso da equipe, que cada contração era a sua filha vindo pra você. Guardei isso no meu coração e fiz uso dessas palavras nas horas do desconforto e ardor.
Eu, particularmente não senti as dores que tanto se comenta, que são as dores no quadril e na lombar; eu senti muito ardor e queimação na parte frontal das minhas coxas, quase perto da virilha, era muito forte mesmo... houve um instante que não estava sentindo mais as pernas...
Deitei.
Era quase 17:00 horas quando a Julianne Brayner chegou e ficou um tempo comigo. Segurava a minha mão e respirava e vocalizava comigo. Uma leveza de ser humano. Ela consegue está presente sem ser evasiva, ela traz a paz que carrega e também a deixa com você.
18:00 horas.
A hora exata que eu nasci.
Julianne pediu para se realizado o toque e eu consenti. Ou eu pedi e ela fez. Não lembro a ordem exata.
Estava com 1cm de dilatação.
Suporte Liliane!
Diante do quadro a Julianne foi para o seu plantão, pois a expectativa para o nascimento da minha filha seria para o outro dia, pela parte da manhã, e ela sairia do plantão para ficar com a gente. E foi embora.
O quarto estava a meia luz, com cheiro de erva-doce e meu marido do lado.
Lucas.
Ele esteve comigo o tempo todo; segurando a minha mão, velando as minhas dores... Ele esteve comigo desde quando eu disse: vou parir Letícia aqui em casa! E ele segurou a minha mão e embarcou. Mergulhamos nesse universo repleto de respeito ao ser humano e ficamos extasiados!
A essa altura eu sentia as contrações, vocalizava e respirava e dormia.
Sim! Eu dormia entre uma dor/ardor. Eu apagava. Literalmente.
Logo após as contrações eu perguntava para a Nanda: "vai piorar?" e ela me respondia daquele jeito todo peculiar dela: "vai minha Preta...vai ficar pior sim, mas você vai conseguir". Eu ouvia isso e apagava.
Continuava deitada e não quis me levantar pra mais nada... mesmo com a doula me dizendo que eu teria que realizar o parto ativo.
Eu me sentia como uma criança "maluvida" e pensava com minhas dores: "quem se levanta dessa cama é outra, porque eu vou ficar aqui!"
Obviamente que Fernanda estava certa, o parto domiciliar envolve as técnicas do parto ativo, onde a mulher dança, senta na bola, faz agachamento, entra na banheira, toma banho morno/quente, anda dentro de casa, se alimenta... enfim...
Eu não.
Eu vomitei o que tinha almoçado e não quis comer mais nada. Fiquei deitada. Gemendo durante o processo de dor/ardor e mais nada.
Foi uma escolha minha?
Instintiva sim!
Porque havia estudado e lido bastante sobre o parto ativo, não imaginaria que teria essa postura. Simplesmente queria ficar quieta. E fui bem respeitada na minha decisão.
A Jú sempre vinha monitorar os batimentos cardíacos de minha filha e escutava os sussurros trocados entre ela e a Nanda: 160.
Ou seja Letícia estava estável o tempo todo. Porque era sempre isso: 160. Ela estava bem, era isso que focava. Era isso que me importava.
Ao acordar entre as dores vi a minha amiga, ‪#‎Joseane‬ !! Josy! Ela veio! Ela estava ali e isso me deu tanta paz, tanto conforto, tantas coisas boas... porque foi a amiga que aceitou a minha decisão sem fazer comentários negativos ou depreciativos diante da minha escolha; a amiga que se preocupou, também, com a situação, assim como as demais amigas que demonstraram receio diante do parto domiciliar.
Quem escolhe esse tipo de parto sabe o quanto é difícil para demais pessoas entenderem sua decisão. Sabe que as primeiras críticas parte da família, do companheiro, dos mais próximos... enfim, não é fácil ouvir/explicar quando a maioria está contaminada/acomodada com o universo da cesária. Eu também já estive desse lado, até que uma semente de puro amor foi despejada no meu coração.
Grata a ela: Rhuanny Peixoto!!! Ela foi a responsável por descobrir esse novo mundo, essa nova perspectiva de nascimento, foi então que fui em busca e tratei de me aprofundar no assunto; bem como ela foi responsável por me indicar o ‪#‎JardimdasComadres‬ , só amor por esse ser humano lindo que aprendi a respeitar e amar. Ela esteve aqui presente, foi ela que eternizou em fotografia e vídeo o instante do meu renascimento.
E assim, comigo deitada, o tempo voou para às 21 horas...
Quando tudo parecia está sob o controle, quando tudo indicava que o nascimento de Letícia iria para a madrugada, tudo foi alterado.
Senti uma imensa vontade de "fazer 2" e pedi para ir ao banheiro. Foi nesse exato momento que o queimor tornou-se insuportável e falei para todos; a Jú me perguntou a onde era esse queimor e eu disse que era na vagina... houve uma movimentação diferente entre a Nanda e Jú, então minha Doula pediu para sentar na banqueta de parto e eu fui. A Jú, como toda delicadeza me pediu pra ascender a luz e eu disse que sim, ela se posicionou na minha frente e disse entre risos, surpresa e concentração de uma excelente profissional:
--Lili, sua princesa já está aqui!
Procurei pelo Lucas e rimos de emoção.
Porém pedi pra ir a banheira, queria parir lá... disse com toda convicção isso para elas; mas a Jú foi direta e honesta na sua resposta: --Não vai dá Lili, a água da banheira está fria. Paramos de esquentar a água pois estávamos esperando o nascimento para amanhã de manhã...
Conformei.
Entendi a situação.
Sentada e sentindo mais ardor do que nunca eu olhei para a Jú e disse entre risos, "ela tá chegando, eu sei.."
Uma contração monstro.
IMENSA.
Ardida.
E prazerosa.
Pausa. Respirei e falei: vai ser aqui.
A Jú disse: ela tá no seu canal vaginal, com mais uma ou outra contração ela está nos seus braços Lili...
Quem mais queria saber de banheira????
Eu só queria ela comigo. Olhei para meu marido, que estava muito emocionado e trocamos um olhar de amor. Acho que nunca amei tanto o Lucas como naquele instante...
Outra contração. A bolsa rompeu. A bolsa se manteve intacta até a hora do expulsivo.
Vi o mecônio e confirmei com Jú se era mesmo. Ela confirmou.
Tínhamos conversado e questionado sobre o tão temido mecônio, não só com ela como também como o meu obstetra.
Voltei a me concentrar no momento.
Vibração.
Êxtase.
Jú disse entre risos: a próxima contração ela estará com você!
E assim foi.
A contração não doeu. Muito pelo contrário, ela foi boa. Era a última. Era a vez da minha filha. Então nada de dor. Eu sorri, segundo quem estava presente. E não duvido. Porque a felicidade de saber que estava acabando e que a teria comigo não tinha dor ou ardor que apagasse a minha alegria.
E assim ela chegou.
Na terceira e última contração na banqueta.
Linda.
Chorando.
Toda rosinha. Toda minha e para meus braços.
Entregamos uma a outra e ficamos juntas.
Glória!!!
Ainda presa pelo cordão umbilical fomos para cama. Deitamos e desfrutamos desse momento juntas. Após uns minutos nessa magia eu cai em gargalhadas!!!
Ria tanto!! Felicidade e amor. ria porque não sentia e não me lembrava de mais nada. sumiu toda dor... toda agonia... tudo!
O cordão foi cortado pelo pai, só quando ele parou de pulsar, e a minha placenta saiu em menos de 20 minutos; também muito rápido; ou seja, perfeito!
Liguei para a minha mãe, que não acreditou de imediato, e ela veio vê a sua neta. A emoção foi sublime.
Larissa conheceu a irmã, não vi a cena, pois estava no quarto, mas ‪#‎Rhu‬registrou tudo em imagens... não sei como agradecer a ela... vi as fotos e chorei... O encontro delas sendo mediado pelo pai me fez ter ainda mais a certeza que fiz a escolha da minha vida.
No mais a situação andou de forma tranquila, Letícia foi pesada, medida e feito os testes de reflexos. Não houve a necessidade de ser aspirada, entubada e passar pela violência que os protocolos hospitalares submetem nossos filhos. Como a minha primeira filha foi submetida... Aquele banho sem tato e sem carinho que se dá nos bebês, a dor que eles sentem ao serem aspirados e o ardor quando coloca o colírio de nitrato de prata.. enfim, não gosto de recordar e pensar... porque não posso voltar no tempo para livrar e salvar a minha Larissa desse ato.
A equipe #JardimdasComadres tem todo aparado dos primeiros socorros. Cilindro de oxigênio, inclusive o aspirador se for necessário usar nos bebês.. se for necessário, essa é a diferença da humanização, a individualidade é respeitada, o nascimento não é um protocolo que é feito em série.
Tudo é feito de acordo com a real necessidade de cada um. Se precisasse ela seria sim aspirada ou então para oxigênio, as possibilidades não são descartadas, porém só são serão feitas se o bebê precisar de fato!
O primeiro banho foi no ofurô, dado pela Jú, ela foi trocada pelo pai.
Embalada no colinho da dindinha/titia ‪#‎Josy‬ , enfim, cercada por nós e acolhida com muito afeto.
Letícia saiu dos meus braços para os braços do pai e logo em seguida pra quem já amava. Sem intervenção de estranhos e protocolos.
Foi a minha escolha.
Foi o que eu quis oferecer pra ela.
Quis algo humano. Nosso.
Nossa casa. Nosso ninho. dentro da nossa privacidade, longe das infecções hospitalares e UTIs, onde também a minha Larissa foi levada...
Quis oferecer todo aconchego possível a ela.
E conseguimos!!
Empoderei do meu corpo.
Fui protagonista do nascimento da minha filha.
Chamada de diva parideira (amei o título Emoticon smile ), guerreira, corajosa, mulher valente... porém nada disso me faz mais mãe que as demais mulheres que optam pela cesária, porque TODAS AS MÃES são infalivelmente imensas na sua força e sentimento materno.
O mais importante é que minha filha está aqui com saúde e cheia de vida fazendo do nosso quintal uma festa ainda maior.
Foi lindo, foi mágico e divinamente forte.
Sou outra mulher após o nascimento dela, sei do meu empoderamento, tenho consciência do quanto eu sou capaz e do que carrego dentro de mim.
Ela veio na Lua Nova.
Ela trouxe todo renascimento.
Ela nasceu.
Eu renasci.
Estamos felizes e bem!

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